O Estresse é ausência de segurança.

Atualizado: 7 de jun. de 2021

Não basta retirar as ameaças, precisamos estender a mão.


Photo by Priscilla Du Preez on Unsplash


Muito falamos a respeito do nosso sistema de luta e fuga, uma herança dos nossos antepassados que nos faz reagir a ameaças que nos cercam. Esse sistema, que nos permitia salvar a nossa pele ao encontrar inimigos reais como leões gigantes, hoje é ativado por outros "perigos"que misturam o real e o percebido. Aquele chefe que nos confunde, aquele trabalho impossível de ser feito, um casamento conturbado, a conta do final do mês. São muitos os estressores presentes no nosso dia a dia que podem levar a um estado de alerta constante, é o chamado estresse crônico, um dos maiores responsáveis pelo afastamento do trabalho e por dois terços das visitas ao médico. Mas será que se tirarmos todas as ameaças ou, pelo menos, deixarmos de perceber algumas situações como ameaçadoras, isso já é suficiente para nos mantermos livres do estresse? Jos Brosschot da Leiden University vai dizer que não.

Depois de estudarem a questão do estresse por muitos anos, um time de pesquisadores concluiu que temos um "estado" padrão e constante de estresse, que existe mesmo quando não há uma ameaça direta ou perigos óbvios ao nosso redor. Uma resposta ao estresse na verdade nem precisa de um estressor, ela simplesmente está sempre "ligada"enquanto não há segurança óbvia. Mas quando as situações ou o entorno é percebido como seguro, ela desliga e volta a ligar quando a segurança percebida desaparece. O nosso natural seria, então, um estado de insegurança generalizada.

Esse estado de alerta constante, com certeza nos ajudou a sobreviver como espécie até hoje. Existe uma teoria evolutiva que chama "better safe than sorry", que no Português é traduzido como "é melhor prevenir do que remediar". Se pensarmos, as criaturas que esperaram para ver qual exatamente era o perigo antes de tomar alguma atitude, provavelmente não estão aqui com a gente hoje. E, este estado de alerta constante, que vem de milhões de anos de evolução, persiste apesar dos perigos antigos terem desaparecido.

Stepehen Porges vai mais além e explica como, fisiologicamente, a sensação de segurança pode até mesmo curar os nossos traumas, que muitas vezes são os responsáveis por deixar o nosso corpo em estado de estresse constante. Segundo ele, se a nossa neurocepção* detectar que uma pessoa, situação ou ambiente tem risco baixo ou não apresenta risco, as respostas de calma diminuem as reações defensivas que associamos ao estresse crônico. É por isso que ter acesso a pessoas que nos acalmam - vozes calmas, expressões faciais que são amigáveis e reconfortantes, envolvimento social de algum tipo - nos permite amortecer as interrupções e danos do estresse e aumentar nossa resiliência aos desafios diários. Nesse contexto, as relações que promovem segurança são a chave para conseguirmos sair desse estado de estresse crônico e até criar uma resiliência que nos permite navegar pela vida de maneira saudável.

A nossa resposta inicial ao sentimento de perigo é eliminar os riscos reais ou percebidos do nosso ambiente. Em São Paulo queremos um carro blindado, um apartamento com segurança e há quem queira a liberdade por possuir uma arma de fogo. Achamos que assim nos sentiremos mais seguros e calmos e menos estressados. Já no trabalho, achamos que basta que a nossa chefe seja uma pessoa justa, as metas atingíveis e as avaliações transparentes. No casamento, basta termos ao nosso lado alguém que nos respeite e esteja presente. Mas na realidade acabamos desistindo ou nos esquecendo da importância da profundidade das relações.

Talvez para conseguir ser saudável em São Paulo, você precise construir relacionamentos que promovam uma segurança emocional real, para além das aparências. Talvez assim esqueça por um segundo que sempre está isolado tentando se proteger de algum perigo. Você pode querer levar o seu casamento para um próximo nível, de gratidão e companheirismo para além da burocracia do dia a dia. E no trabalho, pode ser que não basta resistir a puxar o tapete do seu colega e ser justo com seus subordinados, para sermos saudáveis temos que estender a nossa mão. Perguntar como podemos ajudar, estar de coração aberto para uma troca real e para a possibilidade de estabelecermos relações seguras, onde menos esperamos.

*que se caracteriza pela capacidade de o indivíduo agir conforme sua percepção de segurança ou ameaça a respeito do meio onde ele se encontra.

Bibliografia científica:

Brosschot JF. Ever at the ready for events that never happen. Eur J Psychotraumatol. 2017.


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